Ficha técnica de receita: o documento que define seu lucro
Modelo completo, como criar, como manter atualizada e por que sem ela não existe precificação séria.
Pergunta direta: se eu te perguntar agora quanto custa produzir o seu prato mais vendido, com casas decimais, você responde? Se a resposta é "tenho uma noção", você opera no chute. O que separa quem sabe o número exato de quem chuta é uma coisa só: ficha técnica.
Ficha técnica não é burocracia — é o único jeito de saber se cada prato te dá lucro ou prejuízo. Sem ela, você está precificando no escuro e descobrindo o resultado só no fim do mês, quando já não dá pra corrigir.
O que é uma ficha técnica
É o documento que padroniza uma receita: ingredientes com quantidade exata, modo de preparo, rendimento, custo unitário e custo total da produção. É a "planta baixa" do prato. Serve pra 3 coisas ao mesmo tempo:
- Padronizar o preparo — todo cozinheiro faz igual, não importa o turno.
- Saber o custo real — você precifica com base em número, não em sensação.
- Calcular CMV consistente — sua ficha alimenta o cálculo automático de custo cada vez que muda o preço de insumo.
Modelo de ficha técnica: campos obrigatórios
Uma ficha técnica completa tem 12 campos. Não menos.
Identificação
- Nome do prato — como aparece no cardápio.
- Categoria — entrada, principal, sobremesa, bebida, delivery, etc.
- Foto de empratamento — padrão visual.
- Rendimento — quantas porções essa receita gera, ou quanto pesa o prato final.
Insumos
- Lista de insumos com nome.
- Quantidade bruta — o que entra na cozinha.
- Fator de correção (FC) — razão entre bruto e líquido.
- Quantidade líquida — o que vai pro prato.
- Unidade — g, ml, un.
- Custo unitário — quanto custa 1g, 1ml, 1un.
- Custo total do insumo — quantidade bruta × custo unitário.
Resultado financeiro
- Custo total da receita — soma dos custos dos insumos.
- Custo por porção — custo total ÷ rendimento.
- Preço de venda sugerido — calculado a partir da margem-alvo.
- Margem alcançada — quanto sobra em % e em reais.
Operacional
- Modo de preparo — passo a passo.
- Empratamento — padrão visual + utensílio (prato, tigela, tábua).
- Alérgenos — glúten, lactose, etc.
- Observações — substituições válidas, tempo de preparo.
Por que o fator de correção (FC) muda tudo
Esse é o erro mais comum em ficha técnica feita por amador: ignorar o fator de correção. Se você compra 1kg de cebola por R$ 4, mas só aproveita 800g depois de descascar, seu custo real por grama útil é 4 ÷ 800 = R$ 0,005/g, não 4 ÷ 1000 = R$ 0,004/g. Diferença de 25% — multiplica isso por 30 insumos por prato.
O FC varia por insumo, por sazonalidade e por fornecedor. Tomate em janeiro pode ter FC 1,15. Em julho, FC 1,35. Hortifrúti precisa de ficha técnica com FC sazonal — ou sua margem real cai sem aviso no inverno.
Tabela de FC de referência
| Insumo | FC médio | Observação |
|---|---|---|
| Filé mignon (limpo de fornecedor) | 1,05 | FC baixo se já vem porcionado |
| Picanha (peça inteira) | 1,18 | Aparas e gordura |
| Frango inteiro | 1,40 | Osso e pele |
| Cebola | 1,25 | Casca |
| Tomate | 1,15 a 1,35 | Varia por sazonalidade |
| Batata inglesa | 1,20 | Casca + olhos |
| Camarão fresco com casca | 1,80 | Casca + cabeça |
| Abacaxi | 1,75 | Casca + miolo |
Exemplo: ficha técnica de um prato simples
Risoto de cogumelos para 1 pessoa — rendimento 250g empratado.
| Insumo | Qtd bruta | FC | R$/g | Custo |
|---|---|---|---|---|
| Arroz arbóreo | 80g | 1,00 | 0,028 | R$ 2,24 |
| Cogumelos paris | 70g | 1,15 | 0,065 | R$ 4,55 |
| Funghi seco | 5g | 1,00 | 0,720 | R$ 3,60 |
| Cebola | 25g | 1,25 | 0,008 | R$ 0,20 |
| Vinho branco | 30ml | 1,00 | 0,025 | R$ 0,75 |
| Manteiga | 15g | 1,00 | 0,055 | R$ 0,83 |
| Parmesão | 20g | 1,00 | 0,098 | R$ 1,96 |
| Caldo de legumes | 180ml | 1,00 | 0,004 | R$ 0,72 |
| Salsinha | 3g | 1,30 | 0,030 | R$ 0,12 |
| Custo total | R$ 14,97 | |||
Com margem-alvo de 65% (CMV-alvo de 35%), preço de venda sugerido: 14,97 ÷ 0,35 = R$ 42,77. Pra fechar em número redondo no cardápio, vai pra R$ 44,90.
Como manter as fichas atualizadas (sem virar trabalho infinito)
O maior problema da ficha técnica não é criar — é manter. Em 60 dias o fornecedor sobe preço, e suas fichas viram número antigo. Três regras pra não enlouquecer:
- Atualize por insumo, não por ficha. Quando muda o preço da carne, ele deve refletir automaticamente em todas as fichas que usam carne. Atualizar prato por prato é loucura.
- Foco nos 10 a 15 pratos campeões. Eles representam 70% a 80% do seu faturamento. Mantém eles em dia toda semana. O resto do cardápio, revisão mensal.
- Alertas de margem. Configure pra disparar aviso quando algum prato sair da margem-alvo. Você não precisa olhar — o sistema avisa.
Se você precisa de mais de 5 minutos pra atualizar uma ficha técnica quando muda o preço de um insumo, seu processo está errado. O ajuste deveria ser 1 lançamento → todas as fichas afetadas recalculadas.
Erros comuns em ficha técnica
- Ignorar o FC — subestima custo em 15% a 40%.
- Esquecer descartáveis — embalagem de delivery, guardanapo, palito. Em delivery dá 4% a 8% do custo do prato.
- Não medir tempo de preparo — pratos lentos não dão a mesma rentabilidade por hora-cozinha que pratos rápidos, mesmo com mesma margem %.
- Margem-alvo única pra cardápio inteiro — entrada aceita margem maior, bebida pode ter margem menor mas alta saída. Cada categoria tem sua dinâmica.
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